domingo, 11 de abril de 2010

E por que café???


Semana passada encontrei minha amigona dos tempos de colégio, Mareike que eu não via há uns nove anos, e seu noivo, Gregory. Tínhamos apenas umas poucas horas pra por a conversa em dia, e eu queria pensar em alguma coisa interessante pra fazermos, que desse pra mostrar alguma coisa interessante de São Paulo. Antes mesmo do esperado encontro, soube que aquilo que eles queriam mesmo fazer era "tomar um café" em um local de minha escolha, pois este blog está fazendo com que entre meus amigos eu tenha a fama de "especialista" em cafés. Isso me fez rir um bocado, mas é claro que não podia recusar a sugestão. É claro que de especialista não tenho nada, mas o mero fato de querer dedicar um blog ao café, é algo que parece um pouco intrigante, ainda mais para alguém que não é barista, nem produtora, nem nada... Que muita gente neste país e mesmo mundo afora aprecia muito o café, fazendo de seu consumo um hábito cotidiano, não é novidade pra ninguém. Mas de onde saiu essa idéia de fazer desse hábito um motivo para dedicar linhas e linhas de escrita? O post de hoje é pra responder a esse pergunta que muitos amigos já me fizeram, inclusive Mareike e Gregory: "afinal, e por que café?"

Well, well, well. A resposta poderia ser bastante simples, algo como "porque sim, oras!", ou "porque gosto de café". Mas vou optar pela resposta menos simples, que é também a mais verdadeira, e que investiga não apenas as minhas razões pessoais, mas os motivos pelos quais o café tem se tornado cada dia mais objeto de adoração. Vejamos. Pra começar a conversa, a bebida "café" tem muita semelhança com a mais veneradas das bebidas, o vinho, embora ainda não goze da mesma reputação. Assim como o vinho, a bebida que chega a nossa xícara passou por uma longuíssima jornada, na qual estão implicados diversos fatores que determinam a personalidade final da bebida. A variedade que é plantada, a qualidade da semente, o tipo de solo no qual esta irá germinar, a quantidade de irrigação, de vento, de sol, o modo como é feita a colheita, a seleção final dos grãos, o processo de secagem, o tipo e a intensidade da torra, a embalagem, a moagem, o modo como se transforma o pó em bebida e até mesmo o formato da xícara. Quando vertemos o líquido em nossa boca podemos experimentamos o resultado de toda essa jornada, sem geralmente nos darmos conta de tudo o que há por trás desse momento. Talvez seja um pouco por isso que o café, assim como o vinho, também é envolto em certa aura de mistério. Há algo nele que nos intriga, que nos faz querer desvendar seus segredos, que nos faz querer saber que surpresa nos aguarda na próxima xícara que iremos provar. O café não é um mesmo que um suco de laranja. É bastante raro que se escute por aí alguém falando "oi, tudo bem com você, o que acha de tomarmos um suco de laranja qualquer dia desses?" ou então, "puxa, que canseira, está na hora do meu suquinho". Nem vemos músicas dedicadas ao suco de laranja, ou que o tenham lá no meio da letra. Além de ser uma bebida complexa, pelos motivos acima expostos, o café parece desempenhar um papel importante em nosso universo cultural e mesmo nas relações sociais. Há quem atribua a introdução mais sistemática do café na Europa como um dos fatores da dinamização intelectual dos séculos XVIII e XIX, até mesmo da revolução industrial, quando o consumo dessa bebida enérgica começou a substituir ou ao menos a contrabalançar o consumo de álcool, garantindo longas jornadas de trabalho ou de discussões filosóficas e políticas nos estabelecimentos que logo passaram a ter o nome da bebida, ou seja, nos cafés. O café, enquanto estabelecimento, foi uma verdadeira "instituição" durante o processe de criação da "esfera pública" européia. O que seria publicado nos jornais e nos livros não era apenas gestado no silêncio dos gabinetes ou nas festas do salões, mas, nos "cafés". Talvez no mundo contemporâneo os cafés tenham perdido um pouco esse papel de palco de novas idéias políticas, mas continua a ser um espaço em que pessoas se encontram pra conversar do filme que acabaram de assistir ou do livro que querem começar a ler - não é à toa a proliferação dos cafés em cinemas e livrarias [alias, alguns dos mais simpáticos de são paulo encontram-se nessa categoria], onde pessoas marcam encontros pra matar a saudade, pra discutir coisas do trabalho, ou apenas onde se sentam solitárias para ler o jornal. Podia continuar a enumerar os motivos. Mas há ainda um último, um pouco menos prosaico do que essa atração pelo complexo e misterioso, que é a seguinte: eu gosto muito de café, e na vida aprendi que quando se gosta de alguém ou de algo, o melhor que se tem a fazer é conhecer a fundo, pois quanto mais se conhece mais se aprende a gostar, descobre-se coisas inesperadas, vê-se o belo ou o feio onde antes não se via nada, surpreende-se, aprende-se o que há de melhor. Não é necessário ser um enólogo para gostar de vinho, ou ser um barista para gostar de café. Mas conhecer o mais que se puder, além de ser uma diversão à parte, ajuda a fazer escolhas melhores e a aprofundar a sensibilidade. Quanto mais apurada a sensibilidade, mais podemos nos deleitar com aquilo que há de melhor neste mundo, inclusive neste mundo do café.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Café com Cerveja???



Dê uma boa olhada na espuma cremosa da xícara ao lado. Parece um espresso bem tirado, não é verdade? Na foto um pouco mais abaixo, não temos dúvidas de que se trata de um cafezinho bem encorpado. Como diz o ditado, as aparências enganam. Ou talvez, neste caso, nem tanto. A bebida de corpo negro e espuma da foto não é café, é... cerveja! Mas a primeira impressão não é de todo equivocada: é uma cerveja do tipo Porter, com CAFÉ. Sim, café! E dos bons. Trata-se de uma receita criada pela cervejaria Colorado, de Ribeirão Preto, feita com maltes importados e com um brasileiríssimo café da região mogiana, que recebe um tratamento especial antes de ser incorporado ao mosto. É esse tratamento que faz com que, ao beber a cerveja, seja possível perceber com bastante nitidez o gosto de café fresquinho. Talvez a combinação cerveja + café não seja algo tão estranho, quando pensamos no santo cafezinho que ajuda a cortar um pouco o efeito dos copos de cerveja em excesso. Mas os dois unidos num mesmo copo [ou xícara, como na brincadeira da foto], isso sim é original. E quem estiver torcendo o nariz pra idéia, pode começar a distorcer. A combinação deu certo, muito certo. E essa não é apenas a minha opinião. Essa cerveja já levou vários prêmios internacionais, inclusive a de melhor cerveja do tipo "porter" na European Beer Star de 2008. Pra ter mais informações sobre a cervejinha, vale dar uma conferida no site da cervejaria, no tópico sobre a Demoiselle, o singelo nome para esta bela criação, em homenagem a Santos Dumont [no site há a explicação para o nome].

Ontem à noite, enquanto bebia, fiquei imaginando com que a Demoiselle poderia ter um casamento feliz: sanduiche de presunto pata-negra; linguiça de cordeiro acompanhada de batata saute; qualquer carne defumada; e agora, uma idéia meio heterodoxa, mas que pode funcionar [vou testar e depois conto]: acompanhando uma sobremesa de figos frescos tostados caramelizados com melado e noz moscada. Hmmmmm.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Café na terra do Chá









Quando se pensa em Inglaterra, logo vem à cabeça uma de suas mais famosas "instituições": o chá das 5. Trata-se de uma instituição ainda bastante vigorosa, afinal, como pude constatar em minha primeira e recente viagem àquelas terras, por volta desse horário todos os estabelecimentos do gênero encontram-se lotados. E nas mesas, vê-se mesmo a famosa combinação "tea and scones". No entanto, talvez em uma proporção igual ou maior à de chá, vemos também numerosas xícaras de café, whether black or latte, acompanhadas de todo tipo de quitute. Mas, nos outros momentos do dia, o café parece reinar absoluto: no café da manhã, que durante a semana parece mais com o continental breakfast do que com o tradicional "english breakfast", no meio da manhã, depois do almoço, no meio da tarde ou até após o jantar. Trata-se de um hábito também já bastante enraizado. E há uma coisa bastante na moda por lá: o fair trade coffee. Não é raro ver plaquinhas na frente dos estabelecimentos assegurando que os cafés ali servidos foram comprados por vias que garantem um padrão de negociação justo. E não apenas nos locais que servem o cafezinho, mas também nos vários locais dedicados exclusivamente à venda do grão. Aliás, esse é outro fato curioso. Nas casas que frequentei, pude observar que a preferência é pelo grão inteiro, que é moido em casa, na hora, contribuindo pra ter um aroma mais intenso. Os cafés de origem costa-riquenha ainda parecem mais populares por lá do que os brasileiros, embora estes ganhem em fama, o que os torna mais caros. Em uma das fotos abaixo, tirada na casa da famíla Watts-Miller, em Bristol, pode-se ver o moedor mais utilizado por lá, bem como o modelo de cafeteira doméstica mais popular: a cafeteira francesa, que produz um café menos encorpado que o da de espresso ou da famosa "italiana", mas mais encorpado que o da cafeteira de filtro.


Eu bem que tentei atualizar o blog durante a viagem, mas o tempo foi curto demais, então, já de volta pra casa, faço um breve balanço dos cafés mais marcantes da viagem, mostrando algumas fotos.


O primeiro lugar realmente impressionante, talvez um dos mais marcantes, foi no Bibury Court, que é um hotel com um café aberto a visitantes situado numa mansão do século XVIII, situado na minúscula cidade de Bibury, na região de Costwold, entre Bristol e Oxford. Em meio a uma natureza realmente exuberante, com árvores e riachos, o café fica num salão elegante, com lareira, poltronas delicadamente revestidas de couros o tecido floral, dando ao visitante a impressão de que está sendo recebido em uma casa. Naquele dia extremamente frio e chuvoso, aquela magnífica xícara de latte [enorme, muito cremoso] ficou realmente cravada na memória. Poderia passar ali o resto do dia, olhando a paisagem e gozando da companhia de Elizabeth e William, os maravilhosos "cicerones" que me fizeram ter momentos realmente incríveis em Bristol. As fotos, no sentido horário, são a 4 e a 6. Para saber mais sobre o local, é só dar uma olhadinha no site e suspirar de vontade:

Outro lugar bastante interessante é o Caffé Nero, uma rede espalhada por vários lugares da Inglaterra, que serve um café de excelente qualidade. Dentre aqueles que tive a chance de frequentar, o mais marcante foi aquele que fica dentro da Berghan Books, em Oxford. Depois de passar umas boas horinhas olhando o fantástico acervo da livraria, a parada no café é mesmo uma experiência que não se deve perder, experiência que alias repeti mais de uma vez. Lembro bem do primeiro dia. Era o primeiro dia de sol desde que chegara, o que me fez acordar de muito bom humor. Mas o sono ainda era forte. Caminhei um tanto pelas ruas ainda vazias de Oxford, tentando conhecer um pouco mais a cidade, buscando desesperadamente por um lugar em que pudesse beber um café para me aquecer e, sobretudo, para acordar, pois teria um dia cheio pela frente. Eu só poderia entrar na Bodleian Library às 09, e descobrir a Berghan já aberta aquela hora foi a melhor surpresa. Carregada com os novos livros recém comprados, sentei na mesa do café, acompanhada de uma linda xícara de café e um muffin de laranja com pecã [foto 3]. Naquela mesinha de madeira, batia um fio de sol e, erguendo a cabeça, via pela janela o conjunto arquitetônico que provavelmente é o mais representativo de Oxford, a frente da Bodleian e, ao lado, o Sheldonian Theatre com sua magnífica cúpula [foto 5]. Naquele momento, o fato de só poder entrar na biblioteca depois das 09 deixou de ser um problema, pois ficar sentada naquela mesa, bebendo café, e lendo as minhas novas "aquisições" me fazia ter a impressão de que o tempo parara. Acho que foi por isso que não consegui ter tempo de atualizar o blog... a atmosfera era tão absorvente que a cabeça parecia habitar outro mundo.